Monday, August 4, 2008

... de ajudas domésticas e ser mãe

Outro dia mandei um email pra uma amiga querida que está de mudança para os EUA, oferecendo ajuda. Em resposta, ela dizia que se precisasse de qualquer coisa "doméstica" me falaria "sim!". Na hora me deu vontade de responder. "Como assim ajuda 'doméstica'? Foi nisso que me transformei?" Me contive. Deitei no colo do meu marido e chorei um pouco. Ele não percebeu. Eu não falei nada. Mas fiquei engasgada com essa história por alguns dias. 

Hoje, recebi um email da minha prima Vânia dizendo que se lembrou de mim ao ver esse texto (abaixo). Há pouco tempo eu teria considerado o mais piegas dos escritos. Não vejo mais assim. Me emocionou e traduziu um monte de sentimentos que fazem parte de mim, desse eu que mudou tanto e em tão pouco tempo que ainda se desconhece, reluta em aceitar que posso dar ajuda "doméstica" pra uma amiga. 

... mais uma vez meu filho me chama e, por mais que eu queira continuar escrevendo (porque eu gosto, me faz bem), muito melhor é ver o sorriso na cara dele quando eu parar isso aqui e dar atenção toda que ele quer. 

Ser Mãe

> Nós estamos sentadas almoçando quando minha filha casualmente menciona que ela e seu marido estão pensando em 'começar uma família'.

-'Nós estamos fazendo uma pesquisa', ela diz, meio de brincadeira.

> 'Você acha que eu deveria ter um bebê?'

- 'Vai mudar a sua vida' eu digo, cuidadosamente mantendo meu tom neutro.

> - 'Eu sei' ela diz, 'nada de dormir até tarde nos finais de semana, nada de férias espontâneas.. .'

> Mas não foi nada disso que eu quis dizer. Eu olho para a minha filha, tentando decidir o que dizer a ela. Eu quero que ela saiba o que ela nunca vai aprender no curso de casais grávidos. Eu quero lhe dizer que as feridas físicas de dar à luz irão se curar, mas que tornar-se mãe deixará uma ferida emocional tão exposta que ela estará para sempre vulnerável.
> Eu penso em alertá-la que ela nunca mais vai ler um jornal sem se perguntar: 'E se tivesse sido o MEU filho?' Que cada acidente de avião, cada incêndio irá lhe assombrar. Que quando ela vir fotos de crianças morrendo de fome, ela se perguntará se algo poderia ser pior do que ver seu filho morrer.
> Olho para suas unhas com a manicure impecável, seu terno estiloso e penso que não importa o quão sofisticada ela seja, tornar-se mãe irá reduzí-la ao nível primitivo da ursa que protege seu filhote. Que um grito urgente de 'Mãe!' fará com que ela derrube um suflê na sua melhor louça sem hesitar nem por um instante.
> Eu sinto que deveria avisá-la que não importa quantos anos ela investiu em sua carreira, ela será arrancada dos trilhos profissionais pela maternidade.
> Ela pode conseguir uma escolinha, mas um belo dia ela entrará numa importante reunião de negócios e pensará no cheiro do seu bebê.
> Ela vai ter que usar cada milímetro de sua disciplina para evitar sair correndo para casa, apenas para ter certeza de que o seu bebê está bem.
> Eu quero que a minha filha saiba que decisões do dia a dia não mais serão rotina. Que a decisão de um menino de 5 anos de ir ao banheiro masculino ao invés do feminino no McDonald's se tornará um enorme dilema. Que ali mesmo, em meio às bandejas barulhentas e crianças gritando, questões de independência e gênero serão pensadas contra a possibilidade de que um molestador de crianças possa estar observando no banheiro.
> Não importa o quão assertiva ela seja no escritório, ela se questionará constantemente como mãe.
> Olhando para minha atraente filha, eu quero assegurá-la de que o peso da gravidez ela perderá eventualmente, mas que ela jamais se sentirá a mesma sobre si mesma. Que a vida dela, hoje tão importante, será de menor valor quando ela tiver um filho. Que ela a daria num segundo para salvar sua cria, mas que ela também começará a desejar por mais anos de vida -- não para realizar seus próprios sonhos, mas para ver seus filhos realizarem os deles.
> Eu quero que ela saiba que a cicatriz de uma cesárea ou estrias se tornarão medalhas de honra.
> O relacionamento de minha filha com seu marido irá mudar, mas não da forma como ela pensa. Eu queria que ela entendesse o quanto mais se pode amar um homem que tem cuidado ao passar pomadinhas num bebê ou que nunca hesita em brincar com seu filho. Eu acho que ela deveria saber que ela se apaixonará por ele novamente por razões que hoje ela acharia nada românticas.
> Eu gostaria que minha filha pudesse perceber a conexão que ela sentirá com as mulheres que através da história tentaram acabar com as guerras, o preconceito e com os motoristas bêbados.>
> Eu espero que ela possa entender porque eu posso pensar racionalmente sobre a maioria das coisas, mas que eu me torno temporariamente insana quando eu discuto a ameaça da guerra nuclear para o futuro de meus filhos.
> Eu quero descrever para minha filha a enorme emoção de ver seu filho aprender a andar de bicicleta. Eu quero mostrar a ela a gargalhada gostosa de um bebê que está tocando o pelo macio de um cachorro ou gato pela primeira vez. Eu quero que ela prove a alegria que é tão real que chega a doer.
> O olhar de estranheza da minha filha me faz perceber que tenho lágrimas nos olhos.
> - 'Você jamais se arrependerá', digo finalmente. Então estico minha mão sobre a mesa, aperto a mão da minha filha e faço uma prece silenciosa por ela, e por mim, e por todas as mulheres meramente mortais que encontraram em seu caminho este que é o mais maravilhoso dos chamados. Este presente abençoado de Deus... que é ser Mãe.'

>

2 comments:

mauro said...

... eu já vi muitas mães - as minhas (maes, vós), dos outros, de alunos, maes-alunas... gosto de observar, é o meu lado sócio-antropólogo, por assim dizer... e sem puxar sardinha, eu fico emocionado ao ver a dedicação da esposa com o max - é fora do comum, sem fim, uma energia que eu (e provavelmente ela) não sei de onde vem... nao tinha dúvidas, mas posso dizer com convicção que se eu pudesse escolher entre todas as mulheres do mundo, a dedo, não teria como escolher outra pessoa tão perfeita pra ser a mae dos meus filhos...

Gisleine said...

Quando a manis falou que estava grávida, todos não acreditaram. Tudo porque ninguém imaginou que a Cintia queria/seria mãe. É fato que a minha ficha não tinha caído até ver o barrigão :)
Mas passada a constatação, tudo pareceu bastante simples. Nunca tive dúvidas da qualidade de mãe que minha irmã se tornaria. Pra mim ela foi mãe desde sempre. Como irmã, escondia o feio tornando-o menos doloroso até que eu reconhecesse por vias próprias que a vida podia não ser tão bela. Contou imediatamente que Papai Noel não existia, não porque queria quebrar a fantasia, mas porque não mentiria para nós nos próximos natais. Me carregou no colo um número de vezes quando o namoradinho deu um fora, e outras tantas quando não me sentia boa o suficiênte para continuar tentando o que é que fosse. Não ligou ou escreveu durante um ano enquanto estava nos EUA, o que me fez entender que saudades não é só grito, que também pode ser silêncio. É uma irmã linda, protetora, acolhedora. Se é assim como irmã, não poderia duvidar que seria (como é) boa mãe. Beijos manis, fia